Refloresta
FEMALUMA Gallery – Rio de Janeiro, 2026
By Marcelo Lamarca
FEMALUMA Gallery – Rio de Janeiro, 2026
By Marcelo Lamarca
Marcelo Lamarca: mistério, tempo, regeneração
Um olhar inicial aponta para a relação imediata das pinturas de Marcelo Lamarca com a natureza. Motivos vegetais, árvores, cipós, atmosfera são, de fato, perceptíveis e latentes. Tanto mais: a organicidade mesmo das formas, construídas com pinceladas rústicas, texturas e o volume da matéria pictórica, nos mostra que não são ilustrações, imagens superficiais e chapadas, tão presentes numa civilização imersa no digital, mas permeiam o fazer mesmo dessas imagens, o procedimento de uma mão humana que se debruçou em gestos, camadas (muitas camadas) de pigmento e até de outros elementos que só a junção de pensamento, mão e tempo consegue construir. É, portanto, a vida natural em suas diferentes camadas, tanto na forma quanto no processo e no conteúdo.
Não que Lamarca rejeite ou não valorize a imagem plana, na qual possui vasta experiência. Mas o que interessa, aqui, é a relação com a imagem de outra ordem, menos veloz e imediata, mas vagarosamente profunda: algo nessas imagens faz perceber que a floresta não é motivo gratuito e final, numa sedução romântica de mata virgem e utópica. Resquícios de humanidade permeiam essas cenas, mas não se sobrepõem à paisagem, mas são dominados por ela; uma paisagem pós-humana, regenerativa, que retoma o espaço natural com suas raízes, galhos, umidade, atmosfera. Algo que inverte a ilusão humano-dominador-ativo versus floresta-inerte-passiva. Um mistério que reside nas coisas vivas, mas silenciosas, vagarosas, que respeitam o tempo de ação. Um breve recado para tempos pessimistas: quando tudo acabar, a natureza vai se regenerar, na paciência da minúcia, num tempo nada industrial, nada humano, mas orgânico, molecular, que talvez não presenciemos, mas será.
É também na forma pictórica que essa presença se traduz: as texturas, construídas com mais do que tinta (algo que só o processo do ateliê explica, incorporando tanto a intenção quanto o acaso), nos chamam à aproximação, para notar seus detalhes: o que será isso, qual a espessura daquilo? Nas cores, de certa forma sóbrias, pulsam à voz baixa tons brilhantes, saturações que vazam nas brechas, demandando que tenhamos mais que um segundo para observá-las. Não à toa, um detalhe é expandido até seu limite: somos engolidos por um fragmento mínimo de um tronco de árvore, que revela cores impressionantes ao ser observado pelo microscópio.
Nesta mostra, o percurso deste mundo começa na regeneração. Somos atravessados pela pujança vital que rasga as telas azuladas numa divisão quase simétrica, que de saída nos impacta antes de chegarmos a uma atmosfera mais silenciosa, marcada por um caráter onírico: as águas podem ser, ao mesmo tempo, calmas, mas imprevisíveis; a fusão delas com as clareiras no céu evoca o aspecto etéreo das pinturas. Em todas elas, somos captados pela fisicalidade pictórica, por volumes e elementos inesperados, como se a pintura não conseguisse se conter em seus limites.
Apesar de não haver presença animal (humana ou não humana), a vida, de alguma maneira, chega à nossa percepção. A vibração energética que expressam as imagens do artista provém, possivelmente, de uma memória primordial, algo que pode ser palavreado como espiritualidade, divino ou apenas o mistério da arte… A capacidade de regeneração está no mundo, mas também dentro de nós, aguardando silenciosamente o momento de se manifestar.
Bruna Costa
Click to enlarge